Fabiana Oliveira
As residências universitárias ou casas de estudantes, normalmente conhecidas como repúblicas, são um tipo de moradia compartilhada por estudantes, em sua maioria do nível superior. Em Salvador existem diversas delas, algumas geridas por municípios do interior do estado da Bahia, outras por estudantes organizados em torno de regras próprias de convivência. Há ainda aquelas mantidas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), ou pela Universidade Estadual do Estado (UNEB).
Muitas pessoas normalmente desconhecem a rotina dos jovens que utilizam esses espaços de convivência como moradia. Algumas acreditam que viver numa república é sinônimo de festas e falta de responsabilidade, devido ideia de liberdade, pelo fato destes jovens estarem distantes da disciplina dos pais, mas essa não é a realidade vivida pela Casa dos Estudantes de Itaberaba, residência universitária localizada no bairro do Tororó.
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| Fachada da Casa dos Estudantes de Itaberaba, em Salvador |
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| Residência estudantil irá completar 43 anos em 2013 |
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Infiltrações, vazamentos, banheiros entupidos, torneiras quebradas, falta de água e de segurança, essa é a descrição mínima do que é a rotina na Casa dos Estudantes de Itaberaba (CEI). A instituição tem perdido cada vez mais espaço na comunidade itaberabense, e vem se mantendo numa estrutura precária, estando sua manutenção a cargo exclusivo dos estudantes que nela residem.
A CEI é uma instituição sem fins lucrativos que em 2013 completará 43 anos de fundação, e durante todo esse período tem servido de espaço de moradia para estudantes universitários carentes, vindos da cidade de Itaberaba, localizada interior da Bahia, para Salvador para cursar uma universidade, curso técnico, ou pré-vestibular.
Há alguns anos os estudantes conseguiram com que a Prefeitura Municipal de Itaberaba pagasse as contas de água e energia elétrica, porém, a verba mensal, no valor de R$ 2000,00, destinada à alimentação e higiene da residência, determinada por lei municipal, não vem sendo repassada aos seus representantes, obrigando os estudantes a pagarem pequenas mensalidades para manutenção da moradia.
São cada vez comuns relatos de estudantes que não conseguiram suportar as pressões psicológicas de viver em um local tão cheio de problemas estruturais e administrativos, com acidentes nas escadas que não possuem corrimão, além da distância da família e uma dura adaptação à rotina estressante de uma cidade como Salvador.
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| Teto da cozinha com infiltrações/ Foto: Fabiana Oliveira |
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| Infiltrações nas paredes e teto da cozinha/ Foto: Fabiana Oliveira |
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| Escadas escorregadias e sem corrimão/ Foto: Fabiana Oliveira |
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| Corredor de acesso a sala/ Foto: Fabiana Oliveira |
Tatiane Azevedo, estudante recém-aprovada no curso de Serviço Social, pela Universidade Federal da Bahia, e moradora da “casa” há cerca de seis anos, se mostra indignada com o abandono da residência pela administração do município de Itaberaba. Segundo ela, “a instituição tem prestado um grande serviço à população itaberabense, oferecendo aos seus jovens uma oportunidade de ingresso no ensino superior, já que a cidade dispõe de poucas opções”.
Devido ao impasse vivido entre a administração da residência estudantil e Prefeitura Municipal de Itaberaba, a residência vem acompanhando a perda de valores culturais e históricos, suas reuniões e assembleias, em sua maioria extraordinária, têm sido cada vez mais recorrentes, e não apresentam soluções para os problemas.
Para Elievania Xavier, uma das residentes mais antigas, a grande rotatividade vivida pela residência tem prejudicado as suas atividades, porque os jovens têm chegado a casa sem qualquer engajamento político ou espírito coletivo. Aponta como um dos agravantes o fato dos estudantes terem apresentado um perfil diferente do passado, devido ao surgimento de cotas em universidades particulares.
Relata que no período em que chegou na residência, ano de 2003, haviam pessoas que eram residiam por mais de oito anos, pessoas estas que buscavam uma vaga na Ufba e que passavam para os novos residentes o sentimento de preservação da história da residência estudantil, tradição que vem sendo perdida.
A manutenção da Casa - A residência conta com a administração dos próprios moradores, tendo uma Diretoria Interna (Dicei) e uma Diretoria Externa (Direx), que é a Associação dos Estudantes de Itaberaba (AEI), esta última responsável por conseguir o pagamento, distribuição dos gastos e prestação de contas da verba. As vagas são abertas no início do primeiro e segundo semestres do ano, como também decidido através de assembleias extraordinárias quando em casos excepcionais.
As tarefas de limpeza são realizadas pelos residentes, que são coordenados pelo Secretaria de Limpeza , e pela Secretaria de alimentação, representantes eleitos para fazer a escala da limpeza, e que designam a área que cada estudante irá limpar, além de ter autonomia para aplicação de punições para os que não cumprirem com o que foi determinado, sendo apoiados pelo Regimento Interno e o Estatuto Social da Casa, leis que regem a residência.